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Ordem Eudíaca e a Revista Eudía

O periódico Eudia constituiu o principal órgão de difusão da Ordem Eudíaca (Ordre Eudiaque), fundada e dirigida por Henri Durville (1887–1963). Seu objetivo declarado era:

“Difundir a palavra da iniciação eudíaca, cujo programa consiste no estudo dos grandes problemas que sempre preocuparam a humanidade: o conhecimento de si mesmo e o aperfeiçoamento do ser, a revelação das leis da causalidade, da evolução e, por fim, do mistério de Deus.”

A maior parte dos textos da revista foi redigida pelo próprio Henri Durville, contando, contudo, com colaborações regulares de Philippe Deleuil, Anne Osmont e Irène Mamie, além de ao menos um artigo assinado por F. Jollivet-Castelot. Horóscopos ocasionais eram publicados sob autoria de Paul C. Jagot.

O periódico organizava-se em seções dedicadas ao “psiquismo exotérico” e ao “psiquismo esotérico”, além de conteúdos específicos do Eudiasmo, definido como uma “ciência secreta, vasto panorama das grandes Iniciações”. Entre os temas recorrentes figuravam estudos sobre maldições e proteções psíquicas, ritmos cósmicos, a alma das religiões, animais simbólicos, vida cósmica, leis da analogia e outros assuntos correlatos.

(Marie-François) Hector Durville (1849–1923) foi pai de Henri (1887–1963), Gaston (1887–1971) e André (1896–1979). Todos desempenharam papéis relevantes no universo do magnetismo e do psiquismo na França anterior à Segunda Guerra Mundial, distinguindo-se por intensa atividade editorial, institucional e doutrinária.

Em 1878, Hector fundou a Revue Magnétique com o objetivo de revitalizar o então decadente estudo do mesmerismo. No ano seguinte, o periódico passou a denominar-se Journal du Magnétisme, título inspirado no antigo jornal do Barão Du Potet, encerrado em 1861. Embora Du Potet não tivesse vínculo formal com a iniciativa — e viesse a falecer em 1881 —, Durville apresentou o periódico como uma “segunda série”, afirmando simbolicamente sua continuidade histórica.

Essa filiação não era apenas nominal: o magnetismo praticado por Durville devia muito mais ao magnetismo mágico de Dupotet do que à vertente experimental de caráter médico-científico difundida décadas antes pela revista The Zoist. Seu interesse central concentrava-se no psiquismo ou psiquismo experimental, entendido como a investigação prática das camadas profundas da psique humana reveladas pelo magnetismo.

Entre os fenômenos estudados destacavam-se a telepatia, a clarividência, a telepsiquia, as auras, a fotografia das chamadas “radiações vitais”, a sugestão e a autossugestão, bem como, de modo especial, o desdobramento do corpo humano (dédoublement du corps humain), isto é, a viagem astral — fenômeno explorado por Hector Durville em colaboração com o coronel Albert de Rochas.

Como muitos ocultistas de sua época, Durville destacou-se sobretudo como organizador e sistematizador. Fundou o Institut du Magnétisme et du Psychisme Expérimental (1878), a Société Magnétique de France (1887) e a École Pratique de Magnétisme et de Massage (1893), cuja filial em Lyon foi dirigida por Maître Philippe, célebre curador que exerceu forte fascínio sobre os meios ocultistas da Belle Époque.

Essas instituições deveriam integrar uma futura Université des Hautes Études, estruturada em faculdades de ciências magnéticas, herméticas e espiritualistas. Em 1897, Durville participou ainda da criação de um sindicato internacional de revistas espiritualistas, ocultistas e magnéticas, ao lado de Gabriel Delanne e Paul Sédir, com o intuito de oferecer proteção jurídica e institucional a magnetizadores, médiuns e praticantes afins.

Ativo em praticamente todos os círculos espiritualistas e ocultistas da Belle Époque — incluindo o martinismo, no qual Papus atuava como diretor da École Pratique —, Durville escreveu para numerosos periódicos, participou de congressos internacionais e figurou entre os principais organizadores do célebre Convento Maçônico Espiritualista de junho de 1908, que contou com nomes como Theodor Reuss, Papus e René Guénon.

Sua editora, Librairie du Magnétisme, publicou vasta produção didática destinada às suas escolas, incluindo obras como Le Fantôme des Vivants (1909) e Télépathie, télépsychie: actions à distance (1919). Paralelamente, por meio de suas instituições, comercializava uma ampla gama de dispositivos e produtos magnéticos — muitos de caráter duvidoso — como braceletes, cintos, magnetômetros, sensitivômetros, ímãs “sensibilizados” e até canetas magnéticas supostamente eficazes contra a “cãibra do escritor”.

Em 1912, Hector e Henri Durville foram condenados em Paris por exercício ilegal da medicina em uma de suas clínicas, sendo obrigados ao pagamento de multas impostas por sociedades médicas oficiais.


A passagem desse magnetismo ocultista europeu para o Novo Pensamento norte-americano ocorreu de forma quase natural. A obra Magnétisme Personnel (1905), de Hector Durville, dialogava diretamente com autores como Prentice Mulford e William Walker Atkinson. Sua Theory and Practice of Human Magnetism (1900) foi traduzida e comercializada nos Estados Unidos pela Psychic Research Company, de Sydney B. Flower, em Chicago.

Seu filho André Durville aprofundou ainda mais essa vertente, redigindo sua tese médica sobre A ação do pensamento sobre os fenômenos da nutrição celular e traduzindo para a editora da família obras como O Caibalion (1917) e Suas Forças e Como Usá-las, de Mulford.

Henri Durville foi o principal responsável pela síntese final desse movimento. Após publicar, entre 1910 e 1911, a Revue du Psychisme Expérimental em colaboração com seu irmão Gaston, lançou em 1923 La Science Secrète, obra panorâmica dedicada à história do ocultismo.

Em 1928 fundou oficialmente a Ordem Eudíaca, concebida para oferecer iniciações esotéricas graduadas, metódicas e práticas, de inspiração egípcia, adaptadas ao contexto cultural ocidental. Apesar de frequentemente se afirmar que a Ordem teria sido fundada por Hector em 1892, como escola de magnetismo, estabeleceu em 1895 um ramo na cidade de Lyon a qual tinha a sua frente ninguém menos que Mestre Philippe de Lyon, sendo Papus seu vice-presidente, tal alegação carece de base documental sólida.

A Ordem mantinha dois periódicos — Eudia e Les Forces Spirituelles — e estruturava seus membros em sete graus iniciáticos: Docetista, Somatista, Dianoísta, Pneumatista, Prothymé, Grammate e Logista. O órgão dirigente, o Sínedro, era composto pelos Logistas. A progressão ocorria mediante exames, taxas, talismãs e materiais específicos publicados pela própria editora Durville.

Embora a Ordem Eudíaca não tenha exercido influência significativa fora da França, obteve expressivo êxito em território nacional. Alguns livros de Henri Durville teriam ultrapassado a marca de 400 mil exemplares vendidos, e a revista Eudia publicava mensalmente a relação nominal dos doadores responsáveis pela construção do Eudianum, templo iniciático em Paris — fundo que, em 1933, alcançava cerca de 270 mil francos.

A revista britânica The Occult Review recebeu o movimento com ironia e ceticismo, considerando-o excessivamente teatral e pouco sério para os padrões anglo-saxões.

A Ordem Eudíaca parece ter desaparecido com o advento da Segunda Guerra Mundial, juntamente com suas publicações. Seus irmãos Gaston e André Durville voltaram-se então ao naturismo ou psiconaturismo, fundando a revista Le Naturisme e comunidades experimentais como Physiopolis, no rio Sena, e Heliópolis, na Ilha do Levant, no Mediterrâneo — centros dedicados à combinação de magnetismo, sugestão mental, nudismo, dietética, exercícios físicos, respiração profunda, banhos de sol e espiritualidade naturalista. 

Frater A∴E∴L∴ FR✛C XII° 4°=7° M∴M∴ S∵I∴L∵I∴ א ש‎ Ch†


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