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Para Além da Curva da Estrada

Para além da curva da estrada  Talvez haja um poço, e talvez um castelo,  E talvez apenas a continuação da estrada.  Não sei nem pergunto.  Enquanto vou na estrada antes da curva  Só olho para a estrada antes da curva,  Porque não posso ver senão a estrada antes da curva.  De nada me serviria estar olhando para outro lado  E para aquilo que não vejo.  Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.  Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer.  Se há alguém para além da curva da estrada,  Esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada.  Essa é que é a estrada para eles.  Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos.  Por ora só sabemos que lá não estamos.  Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva  Há a estrada sem curva nenhuma.  Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos"  ...

Iniciação - Fernando Pessoa

Não dormes sob os ciprestes, Pois não há sono no mundo. .................................................... O corpo é a sombra das vestes Que encobrem teu ser profundo. Vem a noite, que é a morte, E a sombra acabou sem ser. Vais na noite só recorte, Igual a ti sem querer. Mas na Estalagem do Assombro Tiran-te os Anjos a capa : Segues sem capa no ombro, Com o pouco que te tapa. Então Arcanjos da Estrada Despem-te e deixam-te nu. Não tens vestes, não tens nada : Tens só teu corpo, que és tu. Por fim, na funda caverna, Os Deuses despem-te mais. Teu corpo cessa, alma externa, Mas vês que são teus iguais. .................................................... A sombra das tuas vestes Ficou entre nós na Sorte. Não 'stás morto, entre ciprestes. .................................................... Neófito, não há morte.