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Os Ritos Egípcios da FUDOSI: Memphis-Misraim na Bélgica e a Revolução Ocultista de 1934

A história do Rito de Memphis-Misraim na Bélgica é uma das mais fascinantes e controversas do ocultismo europeu do século XX. Entre disputas maçônicas, ordens rosacruzes, martinismo, esoterismo egípcio e reivindicações de linhagens secretas, surgiu um movimento que acabaria levando à criação da F.U.D.O.S.I. a Federação Universal das Ordens e Sociedades Iniciáticas em 1934.

Tudo começou em 1912, quando Armand Rombauts (1881–1947), iniciado na Ordem Martinista de Papus, recebeu autorização para estabelecer uma loja martinista na Bélgica. Desde cedo, Rombauts demonstrava ambições de independência: seu objetivo era criar uma Grande Loja Nacional Belga autônoma, chamada I.N.R.I.

Segundo o historiador Marcel Roggemans, Rombauts também teria sido iniciado nos misteriosos graus do Arcana Arcanorum do Rito de Memphis-Misraim. As versões divergem: alguns afirmavam que a transmissão veio de Papus; outros, de um iniciado holandês. Como em muitos episódios do ocultismo da época, a documentação é incerta, mas o simbolismo dessas alegações teria enorme importância posteriormente.

Em 1918, Rombauts recebeu autoridade dentro da Ordem Martinista e, pouco depois, o grau 90° do Memphis-Misraim de Jean Bricaud, então Grão-Mestre francês do rito. Com isso, fundou a loja Les Disciples de Pythagore, da qual Jean Mallinger mais tarde se tornaria uma figura central.

Nos anos seguintes, a Bélgica tornou-se um verdadeiro laboratório esotérico. Em 1931, Rombauts recebeu autorização para fundar uma Ordem Pitagórica belga, estabelecendo lojas em Bruxelas, Antuérpia e Liège. Paralelamente, já existia no país a O.H.T.M. (Ordre Hermetiste Tetramegiste et Mystique), fundada por François Soetewey e Émile Dantinne, conhecido no meio iniciático como Sar Hieronymus.

Dantinne também liderava uma ordem rosacruz chamada Ordo Aureae & Rosae Crucis. Aos poucos, membros dessas diferentes correntes passaram a circular entre as ordens, formando uma rede esotérica híbrida que misturava martinismo, hermetismo, rosacrucianismo e maçonaria egípcia.

Mas essa abertura causou atritos com Jean Bricaud. As lojas belgas aceitavam mulheres, defendiam maior autonomia e buscavam reinterpretar os graus egípcios de forma independente. Bricaud recusou-se a reconhecer essa soberania, e o conflito explodiu em 1933, quando Rombauts encarregou Jean Mallinger de revisar os rituais da Ordem.

A ruptura tornou-se inevitável.

Os dissidentes belgas passaram então a se aproximar de outras correntes internacionais hostis à autoridade francesa, entrando em contato com figuras como Raoul Fructus, Georges de Lagreze, Hans Grüter e, sobretudo, Harvey Spencer Lewis, líder da AMORC.

Lewis acrescentaria um elemento ainda mais extraordinário à história.

Fundador da AMORC moderna, Harvey Spencer Lewis afirmava possuir ligações com a chamada “Grande Fraternidade Branca do Tibete”, uma suposta fraternidade iniciática transcendental popularizada pela teosofia. Segundo suas alegações, ele teria sido investido como mestre espiritual por um monge chamado Massananda Khan.

Os críticos consideravam essas afirmações altamente duvidosas. Alguns documentos apresentados por Lewis misturavam símbolos budistas, letras hebraicas e elementos gráficos aparentemente produzidos por ele próprio, algo plausível, já que Lewis trabalhava como artista gráfico profissional.

Apesar das controvérsias, sua presença impressionou profundamente os dissidentes belgas.

Sob essa nova influência, o Memphis-Misraim belga passou por uma ampla reformulação. Rombauts adotou o nome iniciático de Or-Zam-Phanar e assumiu o título de “Grande Hierofante Invisível”. Novos graus foram adicionados ao sistema, elevando a estrutura para 99 graus: 90 iniciáticos e 9 administrativos.

Em novembro de 1933, o recém-formado “Soberano Santuário da Bélgica” foi oficialmente proclamado através da revista Adonhiram, editada por Jean Mallinger.

Poucos meses depois, em agosto de 1934, ocorreu em Bruxelas a histórica Convenção da F.U.D.O.S.I.

O encontro reuniu rosacruzes, martinistas, pitagóricos, gnósticos e maçons de diversos países. Dentro da convenção, o Rito de Memphis-Misraim ocupou posição central. Jean Mallinger presidiu as sessões em nome do argentino Guerino Troilo, cuja linhagem iniciática alegadamente remontava a Garibaldi e Pessina.

Os participantes afirmavam ter redescoberto documentos originais do Rito de Misraim datados de 1818 e defendiam que era necessário restaurar a tradição “autêntica” do rito, considerada corrompida pela obediência francesa.

Nesse contexto, o Arcana Arcanorum ganhou importância quase mítica. Os belgas afirmavam possuir documentos ligados à “Scala di Napoli”, vistos como chaves secretas da tradição egípcia. Parte desses ensinamentos teria sido transmitida oralmente em cursos ministrados por Rombauts, misturando elementos do antigo Misraim, comentários de Jean-Marie Ragon e até conceitos herméticos derivados de O Caibalion.

A convenção reorganizou completamente a estrutura do rito. Guerino Troilo tornou-se Grão-Mestre Universal; George Lagreze assumiu funções executivas; e Armand Rombauts foi elevado ao topo simbólico da hierarquia como “Grande Hierofante Invisível”.

Mas o impacto dessas decisões foi explosivo.

A obediência francesa de Memphis-Misraim, liderada por Constant Chevillon, reagiu imediatamente. Em documentos publicados em 1936, Chevillon denunciou a convenção belga como ilegítima, criticando a criação de um “Supremo Conselho Internacional” sem autorização francesa.

A ligação entre Harvey Spencer Lewis e a “Grande Fraternidade Branca” tornou-se alvo de ridicularização pública. Para os franceses, essa fraternidade tibetana não possuía qualquer validade maçônica ou iniciática reconhecida.

A crise rapidamente fragmentou o movimento.

Em 1935, as próprias lideranças da F.U.D.O.S.I. expulsaram algumas das ordens maçônicas egípcias ligadas à convenção. Muitos membros acabaram retornando à obediência francesa de Chevillon, enquanto outros seguiram defendendo a legitimidade da linha belga.

Apesar das disputas, a Convenção de 1934 permanece como um dos episódios mais emblemáticos da história do esoterismo moderno. Mais do que uma simples reorganização ritualística, ela representou uma tentativa ousada de criar uma federação internacional das tradições iniciáticas ocidentais, unindo rosacrucianismo, martinismo, hermetismo e maçonaria egípcia em um único projeto espiritual universalista.


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