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O Aprendiz Coën

 


Os ensinamentos do Aprendiz Coën apresentado é muito mais do que uma instrução ritualística. Ele funciona como uma introdução condensada à cosmologia, antropologia e soteriologia de Martines de Pasqually. O primeiro ensinamento é a condição perdida do homem. Quando se pergunta:

> "Qual é o conhecimento que o homem perdeu?"

A resposta afirma que ele perdeu o conhecimento do corpo, da alma, do espírito, do macrocosmo e do microcosmo. 

Essa resposta resume toda a doutrina martinista: o homem originalmente possuía uma ciência total, uma percepção direta da ordem divina e das correspondências entre si mesmo e o universo. A queda produziu esquecimento e fragmentação. Em seguida, pergunta-se:

> "Como perdeu esse conhecimento?"

A resposta é: > "Pela má administração de nossos primeiros pais." 

A palavra "maladministração" (prévarication) é central em Pasqually. O pecado não é apresentado principalmente como desobediência moral, mas como um uso incorreto da liberdade e do poder espiritual. O homem recebeu uma função sacerdotal e falhou em exercê-la adequadamente.

O rito de iluminação também possui significado profundo. A chama do altar do Oriente é a única fonte legítima de luz e todas as demais devem derivar dela. Simbolicamente:

Deus é a única fonte da luz.

Toda iniciação deriva dessa fonte.

O iniciado não cria a luz; ele a recebe.

Outro aspecto marcante é a numerologia. De acordo com Amadou o catecismo explica diversas baterias rituais e seus significados. O número seis, por exemplo, é associado ao homem em sua forma integral, representado pelo duplo triângulo e relacionado às influências planetárias. O número nove refere-se às divisões ternárias das potências espirituais. Esses números não são meras convenções. Para os Coëns, eles expressam leis reais da estrutura do universo.

A preparação do candidato é igualmente reveladora. Ele é colocado:

- sem metais;

- vestido de forma simples;

- cercado por círculos;

- envolvido por mantos negro, vermelho e branco;

- rodeado pelos elementos da natureza. 

Os três mantos representam uma transformação progressiva:

- negro: estado de queda e ignorância;

- vermelho: purificação e combate;

- branco: reconciliação e regeneração.

O candidato revive simbolicamente a trajetória da humanidade caída rumo à reintegração. O tema da maladministração reaparece em uma instrução específica do catecismo. Ela associa a queda a uma desordem introduzida na criação e seguida por julgamento, provação, ação dos elementos e, finalmente, graça. 

Esse é praticamente o esquema completo da doutrina da reintegração:

1. Emanação.

2. Queda.

3. Exílio.

4. Purificação.

5. Graça.

6. Retorno.

Talvez o aspecto mais importante seja que o Aprendiz Coën ainda não recebe poderes teúrgicos plenos. O grau busca formar uma consciência. O iniciado aprende:

- quem ele era;

- o que perdeu;

- por que perdeu;

- onde se encontra;

- para onde deve retornar.

Em linguagem junguiana, poderíamos dizer que o Aprendiz Coën é confrontado com o mito da própria alienação. Ele descobre que sua ignorância não é apenas intelectual, mas ontológica. A iniciação o convida a recordar uma identidade espiritual esquecida e iniciar o caminho de retorno ao Centro.

Por isso, o verdadeiro ensinamento do grau não é a bateria, o sinal ou a marcha. É a ideia de que o homem é um ser exilado de sua condição original, mas que conserva dentro de si a possibilidade da reintegração. Essa é a pedra fundamental de toda a doutrina Coën.  

MRP S∴ I∴ L∴ I∴ MC✠

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