Nos Élus Coëns, a leitura atenta dos manuscritos e regulamentos da Ordem revelam uma concepção de prática espiritual profundamente distinta daquela que, mais tarde, se tornaria comum em correntes mágicas voltadas ao fenômeno, ao êxtase ou à exibição de sinais extraordinários. Desde os textos operativos até os catecismos e estatutos, emerge uma lógica clara: o sucesso da operação jamais é definido pela ocorrência de fenômenos sensíveis, mas pela retificação interior do operante e pela conformidade de sua experiência com a ordem espiritual legítima.
Os manuscritos são inequívocos ao deslocar o critério de êxito do exterior para o interior. Quando afirmam que, se a operação não produz o efeito desejado, a causa está no erro do operante, não se referem à ausência de visões, imagens ou manifestações, mas à inadequação moral, psíquica ou espiritual daquele que opera. O problema não é “não ver”, mas não estar em ordem. A operação, nesse contexto, não é um mecanismo destinado a provocar estados alterados de consciência, e sim um meio de discernimento, isto é, de aprendizagem progressiva da diferença entre o que procede da ordem divina e o que nasce da imaginação, do desejo ou da influência inferior.
Essa centralidade do discernimento explica por que os manuscritos insistem tanto na estabilidade mental. Nas fórmulas de consagração e nas orações prescritas, o que se pede não é arrebatamento, êxtase ou iluminação súbita, mas firmeza, imutabilidade da mente, resolução constante e capacidade de não ser abalado por impressões, imagens ou sugestões. A mente estável é o sinal de que a purificação produziu seu fruto; a mente excitada, volátil ou fascinada por experiências extraordinárias é, ao contrário, indício de falha. A estabilidade interior não é um efeito colateral desejável: ela é explicitamente requerida como condição de legitimidade da operação.
Nesse mesmo horizonte, a exaltação e a turbulência psíquica aparecem nos Estatutos como marcas de indignidade. Espíritos turbulentos, exaltados, incapazes de governar suas paixões e imaginação são considerados inaptos para o trabalho espiritual. Essa exclusão não é moralista, mas funcional: um operador dominado pela excitação interior torna-se vulnerável ao engano. A tradição Coën parte do princípio de que o mundo invisível não se revela de modo neutro e que imagens, sensações e aparições podem ser simuladas ou distorcidas por influências inferiores ou pela própria fantasia do operante.
É nesse ponto que o silêncio e o retardo adquirem um valor positivo. Os manuscritos ensinam que a resposta pode não ser imediata, que o atraso faz parte da economia espiritual e que o silêncio não significa fracasso. Pelo contrário, a ausência de sinais rápidos ou espetaculares é frequentemente mais compatível com a ordem legítima do que uma profusão de manifestações. O tempo, aqui, não é inimigo da operação, mas seu critério: o que procede da ordem superior não se submete à ansiedade humana por resultados imediatos.
Dessa forma, os fenômenos excessivos não são celebrados, mas tratados com desconfiança. Eles aparecem nos textos sobretudo como algo a ser reconhecido e distinguido, não como prova de sucesso. Quanto mais intensa, caótica ou fascinante a experiência, maior a necessidade de cautela. O excesso de imagens, visões ou sensações é compreendido como possível produto de imaginação excitada ou de interferência espiritual ilegítima, jamais como selo automático de autenticidade.
Em síntese, nos Élus Coëns, quanto mais silenciosa, sóbria e estável a experiência, mais próxima ela está da ordem verdadeira. A operação autêntica não culmina no espetáculo do extraordinário, mas na pacificação da alma, no fortalecimento do discernimento e na restauração de uma autoridade interior tranquila. O silêncio, a clareza e a sobriedade não são sinais de pobreza espiritual, mas os indícios mais seguros de que a purificação cumpriu sua função e de que o operante se encontra, enfim, em justa relação com a ordem espiritual que pretende servir.
MRP S∴ I∴ MC✠

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