O Réau-Croix representa o ponto culminante da tradição dos Élus-Coëns, fundada por Martinès de Pasqually no século XVIII. Diferentemente dos graus iniciáticos comuns, o Réau-Croix não é concebido como um simples estágio simbólico, mas como um estado espiritual e sacerdotal, marcado por responsabilidade operativa e não apenas por conhecimento teórico. Trata-se de uma condição na qual o iniciado é investido para agir conscientemente na obra da Reintegração, isto é, no processo de reconciliação do ser humano e da criação com o Princípio divino.
Os manuscritos coëns, especialmente o chamado Manuscrit d’Alger (Cahier Vert), indicam que o Réau-Croix exerce uma função teúrgica específica. Ele atua em nome do Criador, por meio das virtudes intermediárias, utilizando caracteres, selos e nomes sagrados transmitidos pela Ordem. Essa operação, porém, não é livre nem automática: ela depende de um mandato legítimo. Os textos são claros ao advertir que operar sem autorização constitui grave desvio espiritual, pois a autoridade do Réau-Croix não é autoconferida, mas recebida dentro de uma cadeia tradicional.
Outro ponto central desses textos é a distinção entre iniciação e ordenação. Enquanto os graus anteriores transmitem ensinamentos simbólicos e preparam progressivamente o iniciado, o Réau-Croix corresponde a uma verdadeira ordenação espiritual. Ele implica compromisso ético rigoroso, disciplina moral, práticas de purificação e uma vida orientada pela retidão interior. A eficácia da ação teúrgica não depende principalmente da erudição, mas da integridade moral e da conformidade interior com o desígnio divino.
A história do martinismo mostra que esse grau foi compreendido de modos distintos por seus principais herdeiros. Louis-Claude de Saint-Martin, embora tenha sido ordenado Réau-Croix, afastou-se progressivamente da prática teúrgica exterior, privilegiando a via interior do coração e da transformação íntima. Já Jean-Baptiste Willermoz procurou preservar a doutrina da Reintegração, mas depurou os elementos operativos, integrando-os de forma simbólica e moral no Rito Escocês Retificado. Dessa forma, a teurgia explícita dos Élus-Coëns deu lugar a uma abordagem mais interiorizada e ética.
Por essa razão, é necessário cautela diante de rituais modernos que se apresentam como “Réau-Croix”. As fontes históricas autênticas são fragmentárias e não fornecem um ritual completo e fixo, mas sim princípios espirituais, advertências e orientações gerais. O núcleo da tradição enfatiza que o Réau-Croix não é um título honorífico nem um poder mágico, mas uma função sacerdotal de serviço, orientada à restauração da ordem espiritual e à reconciliação universal. Em síntese, o Réau-Croix simboliza o ideal máximo do caminho coën: unir pureza moral, obediência ao Princípio e responsabilidade espiritual na obra da Reintegração.
MRP S∴ I∴ MC✠

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