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Mostrando postagens de 2025

Sudha Dharma Mandalam: o ideal esotérico do “Dharma Puro”

No meu percurso pesssoal travei contato com o antigo monasterio AMO+PAX e todo o "guarda-chuva" de ordens ocidentais e orientais que nosso Mestre Jehel, Sri Swami Sevananda organizou na forma de um sistema unificado. Passei então a reconstruir pessoalmente este sistema para minha prática pessoal, e tive a benção e oportunidade de ser recebido na Sudha Dharma Mandala.  Entre as inúmeras tradições que floresceram na Índia moderna, poucas despertam tanta curiosidade entre estudiosos do esoterismo quanto a Sudha Dharma Mandalam — uma ordem espiritual fundada no início do século XX que se apresenta como guardiã do “Dharma Puro”, a sabedoria eterna por trás das religiões. Ao contrário das grandes correntes devocionais do hinduísmo tradicional — como o Vaishnavismo, o Shaivismo ou o Shaktismo —, a Sudha Dharma Mandalam não se estrutura em torno de uma divindade exclusiva nem se limita ao culto ritualístico. Sua proposta é filosófica, ética e iniciática, aproximando-se mais de uma es...

Tradições Védicas

Falar em “hinduísmo” no singular é, de certo modo, uma simplificação. O que chamamos de hinduísmo é, na verdade, um vasto oceano de tradições espirituais, filosóficas e devocionais que floresceram ao longo de milênios no subcontinente indiano. Não se trata de uma religião centralizada, com um único profeta ou um dogma fixo, mas de um conjunto vivo de caminhos que buscam a mesma verdade essencial: compreender a natureza da consciência e libertar o ser humano do ciclo de sofrimento (saṃsāra). Para entender essa complexidade, é útil distinguir dois grandes níveis: as correntes religiosas (sampradāyas) — focadas na devoção e no culto — e as escolas filosóficas (darśanas) — dedicadas à reflexão metafísica e ao conhecimento da realidade última. No plano devocional, o hinduísmo se expressa através de grandes tradições que se organizam em torno de diferentes deidades, compreendidas não como deuses rivais, mas como manifestações do mesmo Absoluto (Brahman). O Vaishnavismo é a corrente dedicada ...

O pensamento de Boehme

 Jacob Boehme (1575–1624), conhecido como “O Teósofo Alemão”, foi um místico luterano que buscou compreender o problema do mal, a criação do universo e a relação de Deus com o mundo. Considerava que Deus é o fundamento e a causa de tudo o que existe, tendo emanado a si mesmo para se manifestar. Sua mística é entendida como uma relação íntima e pessoal com o Ser Divino, cuja experiência ultrapassa a razão e é apreendida pela “inteligência do coração”, uma intelecção intuitiva e unificadora. Para Boehme, a razão é dual e limitada ao sensível, enquanto o coração iluminado pelo Espírito pode compreender os princípios suprassensíveis. A criação, segundo Boehme, é uma emanação do próprio Deus: o universo e todas as criaturas surgem a partir de sua essência divina. Tudo o que existe contém um duplo impulso, bom e mau; nada há na natureza que não possua essa dualidade fundamental. O bem e o mal são forças necessárias e complementares, cuja tensão dá movimento à vida. Essa concepção dual es...

O martinismo por Amadou

 O Martinismo, conforme exposto por Robert Amadou em Louis Claude de Saint-Martin e o Martinismo (1946), é uma doutrina espiritual e filosófica originada do pensamento do Filósofo Desconhecido, Louis Claude de Saint-Martin (1743–1803). O autor apresenta o martinismo como um sistema místico e teológico que une filosofia, teosofia e prática interior, sendo ao mesmo tempo uma tradição iniciática e uma via de transformação pessoal. Mais do que uma escola doutrinária, trata-se de uma vivência espiritual voltada à Reintegração do Homem em Deus, ou seja, ao retorno do ser humano ao estado primordial de unidade com o divino. A obra distingue claramente o martinismo da corrente dos Elus-Cohen fundada por Martinez de Pasqually, mestre de Saint-Martin. Embora compartilhem o mesmo fundamento — a ideia da Reintegração —, a escola de Pasqually se manteve no plano da teurgia e da maçonaria superior, enquanto Saint-Martin rejeitou os rituais e práticas mágicas, propondo um caminho essencialmente i...

O.T.O. Ritual – Iº Grau - Theodor Reuss (Pré Thelêmica)

“ Os infelizes e necessitados, que não estão despidos nem vestidos, que não usam sapatos ou estão descalços, são aqueles que buscam no solado da porta do templo.” O Buscador deve então despir-se, pondo de lado toda a roupa. Qualquer joia que ele tenha pode, por ora, ser retirada — ele recebe uma camisa branca para vestir — à esquerda do peito e à esquerda do braço ficam expostas, exatamente da mesma forma que o joelho esquerdo e o pé direito (como com o sapato desgastado). Com os olhos vendados e um cordão em volta de seu pescoço, em sua mão esquerda ele segura um compasso aberto a 45 graus, com um único ponto no coração. Enquanto o candidato está na sala da tumba, a Câmara do Silêncio, ele põe esse círculo de lodo, mas, ao novamente abrir os olhos, estes continuam vendados da mesma forma que estavam quando entrou no templo. Prova da Terra Assim que estiver pronto, o Neófito será levado para dentro da Câmara da Reflexão — o túmulo dos mortos e perdidos. Uma pequena vela será trazida ad...

Theosis: um com Cristo

"Pelas quais ele nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina” (2 Pedro 1:4). “ Já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20). Na tradição cristã — especialmente na teologia oriental — a doutrina ortodoxa de “tornar-se como Cristo” é conhecida como Theosis (do grego θέωσις, “divinização” ou “deificação”). A theosis é o processo pelo qual o ser humano, pela graça de Deus, participa da natureza divina, tornando-se semelhante a Cristo — não por essência (pois Deus permanece Deus), mas por participação. Trata-se de um dos conceitos centrais da espiritualidade da Igreja Ortodoxa. A espiritualidade cristã proposta por Thomas de Kempis, em A Imitação de Cristo, apresenta-se como um itinerário interior cujo propósito fundamental é conduzir a alma humana à união com Deus. Mais do que um compêndio de normas religiosas ou um manual de devoção superficial, a obra propõe um caminho de transformação existencial no ...

Boehme e Pasquallys: aproximações e distanciamentos

As doutrinas de Jacob Boehme e Martinez de Pasqually representam duas vertentes complementares da teosofia cristã moderna, unidas pelo propósito de explicar a origem, a queda e a reintegração do homem e do cosmos, ainda que adotem métodos distintos para atingir esse objetivo. Boehme, místico alemão do século XVII, concebe Deus como Ungrund, o abismo sem fundo, um princípio absoluto e indeterminado do qual emana o Desejo divino de se conhecer. Esse movimento gera a dualidade fundamental entre luz e trevas, amor e ira, estabelecendo a base para a manifestação do universo e para o surgimento da consciência humana. A queda resulta da separação da Vontade da Luz, criando exílio e ignorância, tanto no homem quanto nos anjos. Para Boehme, a reintegração não depende de rituais externos, mas da regeneração interior, do despertar da Sophia, a sabedoria divina, e da reconciliação dos opostos na alma, culminando no nascimento do Cristo interior. O homem, como microcosmo do universo, participa ativ...

A linhagem martinista russa da Ordem Martinista dos Cavaleiros de Cristo

O Martinismo tem suas raízes nos ensinamentos de Martines de Pasqually, que fundou a Ordem dos Sacerdotes Eleitos Coëns do Universo no século XVIII, com uma abordagem teúrgica e ritualística. Louis-Claude de Saint-Martin, discípulo de Pasqually, desenvolveu uma vertente mais filosófica e mística, enfatizando a reintegração do homem ao estado original de pureza e luz divina. Essa corrente é conhecida como Martinismo de Saint-Martin.   Na França, no final do século XIX, Gérard Encausse, conhecido como Papus, fundou a Ordem Martinista, estruturando-a em graus iniciáticos e incorporando elementos da Maçonaria Egípcia e da Igreja Gnóstica. Essa vertente é chamada de Martinismo Papusiano. A Ordem Martinista dos Cavaleiros de Cristo (OMCC) é uma organização iniciática que busca preservar e transmitir os ensinamentos esotéricos do Martinismo, uma tradição mística de origem francesa fundada no século XVIII. A OMCC foi estabelecida na década de 1970 por Armand Toussaint e Maître Raymon...

Anacrise de Pellagius - Uma chance de Comunhão com o Anjo

Louis-Claude de Saint-Martin, conhecido como o “Filósofo Desconhecido”, ensinava que cada ser humano possui ao seu lado um bom anjo, chamado por ele de “anjo amigo”. Esse ser espiritual é concedido por Deus como um companheiro invisível que acompanha a alma ao longo da vida, protegendo-a, inspirando-a e conduzindo-a no caminho de volta à sua origem divina. Para Saint-Martin, o anjo amigo não é apenas um guardião, mas também um mensageiro da luz, cuja missão é recordar ao homem que ele traz em si uma centelha espiritual que deve ser despertada e reintegrada a Deus. A ação desse anjo, contudo, não é impositiva. Ele age de forma discreta, iluminando os pensamentos, fortalecendo nas provações e conduzindo suavemente ao bem. Cabe ao ser humano, pela oração interior, pela pureza de intenção e pela prática da virtude, abrir-se à sua influência. Quanto mais a alma se afasta dos vícios e se volta à contemplação, mais apta se torna a sentir a presença de seu anjo amigo e a perceber suas inspiraç...

Hexagrama das Paramitas

  Seis Paramitas, ou Seis Perfeições, são práticas essenciais no budismo Mahayana, que visam desenvolver qualidades que levam à iluminação. Elas funcionam como um roteiro para uma vida mais significativa e com propósito, cultivando virtudes que transcendem a si mesmo e beneficiam os outros.  As seis paramitas são: 1. Dana (Generosidade): Oferecer sem esperar nada em troca, seja bens materiais, conhecimento ou proteção.  2. Sila (Disciplina Ética): Abster-se de ações prejudiciais e cultivar um comportamento ético e responsável.  3. Kshanti (Paciência): Desenvolver tolerância e resiliência diante das dificuldades e adversidades da vida.  4. Virya (Diligência): Manter um esforço constante e entusiástico em direção à prática espiritual e ao bem-estar dos outros.  5. Dhyana (Concentração): Aprofundar a concentração e a estabilidade mental através da meditação.  6. Prajna (Sabedoria): Desenvolver a compreensão profunda da natureza da realidade, incluindo o v...

Hexagrama na Tradicao Budista Vajrayana

O hexagrama, frequentemente reconhecido no Pentáculo martinista, é um símbolo rico em significados em diversas tradições espirituais. Em contextos esotéricos ocidentais, ele representa harmonia, equilíbrio e a integração de opostos, como luz e sombra, espírito e matéria. No Budismo Vajrayana, esse mesmo símbolo assume uma dimensão específica e profunda, sendo conhecido como Dharmodaya e associado à deusa Vajrayogini, figura central na prática tântrica. O termo Dharmodaya significa literalmente “fonte da realidade”, e o hexagrama simboliza a essência da prática espiritual, representando o ponto de origem da percepção iluminada e o fundamento da realidade última. Vajrayogini, divindade feminina do Vajrayana vinculada à sabedoria e à transformação, tem o hexagrama como núcleo de seu mandala, representando o palácio celestial onde sua presença manifesta a união de energia e consciência. O hexagrama é formado por dois triângulos equiláteros interpenetrados, um apontando para cima e outro pa...

Uma viagem a India: em busca de Ramana Maharishi

Retornamos da montanha depois de passarmos alguns dias nela, e hoje, sentada sob o banyan, faço algumas reflexões muito familiares, talvez para vocês. A Índia, penso, é um imenso livro de Sabedoria, com tantas páginas a serem lidas quantos seres nela devem chegar. A todo aquele que aqui chega, lhe tocará o seu capítulo correspondente: nem mais nem menos. Como a vida, ela deve nos oferecer o que merecemos, ou seja, o que conquistamos com nosso próprio esforço. Na Índia encontra-se a escala completa: o mais baixo e abjeto, de um lado, e o mais alto e nobre, do outro; terrível fealdade e estupidez frente à beleza mais perfeita e à inteligência mais clara. À Índia é preciso chegar preparado para que ela nos dê algo, só algo, daquela imensamente grande e bela coisa que contém. Àquele que chega antes do tempo, ela cegará, ou mostrará apenas vulgaridade, pois essa está ao alcance de qualquer um. Mas, àquele que se entrega à vida com toda a força de sua inteligência, e com todo o ardor de se...

A Iniciação de Bulwer Lytton na Tradição Rosacruz, segundo Westcott

De acordo com William Wynn Westcott, uma loja rosacruz teria permanecido ativa em Frankfurt am Main, Alemanha, no início do século XIX. A esse respeito, ele escreveu: “Em 1850, a Frankfurt Rosicrucian Lodge of Meno entrou em hibernação; foi nela que Sir Edward Bulwer Lytton foi iniciado e tomou contato com ideias que mais tarde desenvolveria em Zanoni e em outras de suas obras.” Sabe-se que Bulwer Lytton realizou uma viagem à Alemanha entre 1841 e 1843, sendo bastante plausível que tenha visitado um grupo iniciático em Frankfurt. Assim, cabe questionar se essa “antiquíssima Loja Rosacruz” teria praticado o Rito Rosacruz de Ouro (Gold- und Rosenkreuz). Contudo, tal hipótese parece improvável, uma vez que não há evidências da atividade desse rito na Alemanha no início do século XIX. Além disso, o próprio Bulwer Lytton escreveu ao ocultista Hargrave Jennings: “Existem razões que me impedem de tratar profundamente da fraternidade Rosacruz, uma sociedade que ainda existe, mas sob um nome qu...

Sinarquia e Nova Reforma Rosacruz

Saint-Yves d'Alveydre (1842-1909) foi um místico francês que influenciou , com suas ideias e experimentos, muitos autores importantes da Belle Epoque esotérica, incluindo Papus (1865-1916) o reavivador do movimento martinista. Seu Opus Magnum sem dúvida foi o Arqueometro que sintetiza seu pensamento e pesquisas. Hoje discutiremos a proximidade do conceito de Sinarquia proposto pelo autor e a Nova Reforma pregada pelos Rosacruzes no século XVII. Ambos compartilham de ideias fundamentais sobre a transformação social e espiritual, mas suas abordagens e ênfases apresentam diferenças interessantes. Tanto a Sinarquia como a Nova Reforma visam uma transformação profunda do mundo, com a crença de que a humanidade precisa superar suas estruturas corrompidas e se alinhar a princípios espirituais superiores. No entanto, enquanto a Nova Reforma Rosacruz foca na renovação do indivíduo como ponto de partida, a Sinarquia de Saint-Yves d'Alveydre propõe uma transformação política mais direta, ...